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Primeiros capítulos de Beleza sombría e Sedento de amor



Boa tarde;

Concordo com todos os primeiros capítulos de meus dois romances Beleza sombría e Sedento de amor que  estão à venda na Amazon em ebook.

Espero que você goste.







PRÓLOGO



Vancouver, primavera 2005

Local Moon´s Bitte


As luzes de neon do local brilhavam com intensidade atraindo aos homens que circulavam pelas ruas aquelas altas horas da noite. A música que se escutava dentro do local tocava com força enlouquecendo com o seu frenético ritmo, aos que dançavam na pista. Os garçons si moviam fluentemente entre os clientes equilibrando bandejas com as bebidas. Aquela noite a festa duraria até perto da meia-noite, e ninguém queria perder nem um segundo.
Desde o fundo do local, uma jovem de não mais de vinte e cinco anos observava a pista desde a escuridão, se escondia na zona que se abria de dia como restaurante.
Como cada noite, esperava a que se fossem os clientes para limpar o bar junto aos demais garçons e preparar o local para o dia seguinte.


Duas horas depois…


—Me diz que esta é a última caixa que você precisa?
Gabrielle Smither se incorporou, limpando as mãos no avental. Diante dela, Riper Wayden, companheiro de trabalho, bufava entre dentes, cansado de estar transportando as caixas de bebidas do armazém do restaurante onde ambos trabalhavam até a barra do mini bar.
—Não se queixe, Riper. Não é você quem coloca as garrafas —respondeu Gabrielle abrindo a nova caixa que havia em cima da barra—. Ainda temos cinco caixas mais que arrumar. —Começou a retirar as garrafas de vinho tinto da caixa, guardando-as na pequena geladeira sob a barra—. Deixa de me incomodar e retorna ao armazém. Quanto antes acabemos com isto, antes sairemos daquí.
Riper bufou, mas não lhe discutiu as ordens. Deu meia volta e regressou ao armazém.
De uma das mesas do local, Antoine Sinclair sorriu depois de tomar um gole de whisky. A pesar de ser o chefe, desfrutava indo cada noite para interagir com os clientes e comprovar que seus empregados eram eficazes.
Sorriu abertamente quando contemplou como trabalhava duramente a jovem, a única mulher do local.
Gabrielle Smither era a encarregada do grupo de trabalhadores do turno de noite. A princípio, Antonie duvidou que ela estivesse capacitada para desempenhar esse papel, mais agora, ao ver como conseguia que os homens que trabalham com ela seguissem suas ordens sem protestar, sabia que havia tomado à decisão correta.
—Já não aguento mais, Gaby. O chefe nos explora. —Uma tosse lhe fez olhar para trás e avermelhou quando viu ao senhor Sinclair lhe saudar levantando o copo—. Merda, o velho me escutou.
Gabrielle saiu de debaixo da barra onde levava quinze minutos colocando as latas de refresco por ordem.
—Deixa de se queixar, Riper. —Ao levantar-se de repente gemeu em voz alta. Doíam-lhe as costas de estar tanto tempo agachada—. Move a sua bunda e vem me ajudar com estas latas.
Riper soltou uma gargalhada e passou pra detrás da barra.
—A suas ordenes, minha comandante.


Duas horas mais tarde


Eram as três da madrugada quando Gabrielle saiu do local. Estava esgotada e havia perdido o último ônibus que passava por esse bairro. Ela não tinha mais opção que percorrer duas quadras para chegar até seu pequeno apartamento.
Tomou a rota pelo parque. Se o atravessava, adiantaria ao menos meia hora de trajeto. Mais o que ao principio lhe tinha parecido uma boa ideia, converteu-se em um pesadelo quando se encontrou rodeada por três delinquentes que lhe gritavam que lhes desse todo o dinheiro.
Estendeu-lhes a bolsa, esperando que com isso a deixassem em paz.
Um dos homens atirou o conteúdo da bolsa ao chão e procurou a carteira, esvaziando-a. Vinte dólares e cinquenta centavos.
—Seguro que você não tem mais, cadela?
Gabrielle negou com a cabeça, visivelmente morta de medo.
—Não, isso é tudo. Não tenho mais dinheiro.
Os ladrões a olharam de cima abaixo, com avareza, com escuras intenções. Ao sorrir mostraram seus dentes retorcidos.
Gabrielle tremeu ao ver aqueles sinistros sorrisos, e um nó se formou em seu estomago que aumentou, quando ouviu:
—Esta noite nos divertiremos com você, cadela —decretou o ladrão lançando a carteira ao chão.
Os demais homens riram em alto, rodeando-a, saboreando a presa antes de prová-la.
—Nossa pequena putinha treme de desejo. —Brincou um deles puxando o casaco de Gabrielle, arrancando-o de seu corpo.
Gabrielle deu um passo para trás, cobrindo os seios com os braços. Debaixo do casaco levava uma camiseta curta e uma saia longa até o joelho, seu uniforme de garçonete. Sentia-se exposta, nua ante esses olhos viciosos que a devoravam maliciosamente a pesar de estar vestida.
—Não! —gritou assustada—. Me deixem em paz! Já lhes dei meu dinheiro.
O homem que devia ser o chefe daquela banda lhe deu um golpe em sua face, partindo-lhe o lábio inferior.
—Silencio, cadela. Não vai estragar esta noite com choramingo sem sentido.
Naquele momento, quando tudo parecia perdido, Gabrielle começou a gritar com todas as suas forças pedindo ajuda. Os ladrões se avançaram sobre ela.
O golpe que levou quando a tiraran no chão, a nocauteou uns segundos, o tempo suficiente para ser despojada da sua camiseta.
—Me deixem!—Mexeu-se chorando de impotência. Seus agressores a mantinham presa, agarrando-lhe das munhecas e as pernas. Deixando-a exposta para ser tocada sem impunidade—. Não, por favor.
O homem que estava sobre ela riu.
—Eu gosto quando resistem. —Lhe lambeu a bochecha, enojando-a.
O homem que a sujeitava pelos pulsos gritou que o colega se apressasse. Ele ia a ser o seguinte em violá-la.
Gabrielle gemeu de dor quando lhe obrigaram a abrir as pernas. Estavam-na marcando com suas mãos e se ninguém iria salvá-la a marcarian para toda a vida.


Lucius Cuestelvinier vigiava a zona norte da cidade.
Era seu dever.
A Unidade que dirigia se espalhou seguindo suas ordens ao perceber a presença de um grupo de não mais de vinte licantropos, selvagens criaturas que não pertenciam a nenhuma manada, nem aceitavam as leis que regiam a sua raça.
Levava duas horas percorrendo a cidade, com os sentidos alertas sem chegar a perceber nada fora do normal.
Tomou o caminho para o parque central. Os lobos tinham o habito de esconder-se em lugares verdes. Ao entrar no parque tirou a arma que levava escondida nas costas. Tinha escutado os gritos de uma mulher pedindo ajuda.
Wulfric, Syemus…, no parque escuto atividade, vou até lá.
Não demorou em receber resposta a sua mensagem mental.
Seguimos aos intrusos ou vamos a seu encontro?
Lucius saltou por cima de um banco. Utilizou uma vez mais a conexão mental que abriu para comunicar-se com seus homens de confiança.
Sigam com a missão. Nos encontraremos na mansão.
Os homens não discutiram suas ordens. A palavra de Lucius era lei. Era o senhor dos vampiros da América do Norte, um guerreiro poderoso e arrogante, com mais de dois mil anos de existência.
E essa noite… um caçador implacável que se encontrou com uma imagen que mudaria sua vida.


Gabrielle gritou até que lhe cobriran a boca com uma mordaça. O pedaço de pano, que uma vez foi sua camiseta, foi atada firmemente ao redor de sua boca tampando parcialmente seu nariz. A falta de ar a enfraqueceu, deixando-a exausta e a mercê deles.


Lucius seguiu o rastro que deixou o aroma do medo e atravessou parte do parque. Quando chegou ao lugar do ataque se surpreendeu ao presenciar a agressão. Tinha a esperança de caçar uns quantos vira-latas, mas em lugar de homens lobos encontrou-se com um grupo da escória.
Ficou parado frente aos mortais. Não devia interferir, os assuntos dos humanos não importavan aos de sua raça. Mas quando lhe llegou o aroma da presa daqueles homens, seu corpo se esticou e o seu coração começou a palpitar com força. Aquela fêmea era especial, uma humana que tinha retornado da morte e possuía o dom de aceitar o escuro presente da imortalidade. Uma mulher que cheirava maravilhosamente bem e que lhe atraía com um magnetismo animal que o surpreendeu.
Luc, encontramos a pista dos lobos, estão na parte sul da cidade.
Lucius inclinou-se contra uma árvore e cruzou os braços fechando os olhos, respondendo a Wulfric.
Pegá-los e leva-los para a mansão. Temos uns calabouços reservado para eles.
A voz de Wulfric, um guerreiro nórdico, ressonou com força em sua cabeça.
Lucius lhe esperamos ou…
Não. Estou ocupado. —Abriu os olhos. Por mais que as normas da sua raça lhe proibissem envolver-se em rixas de humanos, não ia deixa-la nas mãos desses abutres. —Assim que chege a casa, venham ao meu escritório. O golpe ao Conselho terá que ser adiantado.
Wulfric se mostrou curioso já que os planos para obter a queda dos vampiros que desejaban o poder de Lucius foram planejados com fria calma, tendo em conta cada passo a dar para não cometer nenhum erro.
Por esta razão, o que podia ter acontecido para que Lucius quisesse adiantar os acontecimentos?
 —Lucius, pode se saber o motivo?
O silêncio que acompanhou a pergunta de Wulfric deixou nervosos os guerreiros que seguiam a conversa. Seu Senhor era conhecido por seu forte caráter e por nada do mundo queriam ser aqueles atingidos pela sua ira.
 Lucius deu um passo adiante. Tinha tomado uma decisão e por mais que a sua mente racional lhe gritasse que estava cometendo um engano, não ia voltar atrás.
 —Lucius... — chamou-o Wulfric.
 Era hora de actuar. Lucius grunhiu atraindo a atenção dos ladrões que se separaram da mulher, enquanto transmitiu mentalmente a resposta a seus guerreiros.
Esta noite me lançarei ao inferno de cabeça. Essa é a razão, por a qual adiantaremos o ataque.
—Soltem! —rugiu guardando a pistola na capa. As balas de prata eram valiosas e escassas, não ia desperdiçá-las com aqueles malnascidos.
Um dos mortais soltou às pernas da mulher e se levantou.
—Cai fora, tio. Não se coloque onde não te chamaram.
Lucius vaiou mostrando as presas que se alargaram vários centímetros se sobressaindo dos lábios. Tomou uma postura de ataque e saltou, desaparecendo diante dos olhos assustados dos homens. Não ia perder tempo com aquela escória. Agarrou pela lapela ao que permanecia sobre a mulher e o estrelou contra uma árvore, lhe quebrando o pescoço. Antes que escapassem os outros dois degolou-os com as garras, queimando seus corpos com seus poderes. Não podia deixar rastros das mortes. Era primordial seguir oculto nas sombras e que os seres humanos continuassem acreditando que sua existência era pura fantasia e folclore; material para romances e filmes.
Depois de limpar o cenário do crime, ajoelhou-se ao lado da moça e a examinou com cautela. Sua presença o alterava de uma maneira que não era possível para a sua raça. Um vampiro sempre permanecia frio, sem mostrar sentimentos, levando uma máscara que ocultava o que sentia. Tinham nascido para o combate, permanecendo sempre na escuridão.
Levantou-se ao ver que tinha estendido a mão para acariciar o rosto dela.
—O que estou fazendo?—murmurou em voz alta, golpeando a testa com a mão—. O que me provoca mulher?


Gabrielle despertou ao ouvir a rouca voz de um homem. Quando abriu os olhos o viu. Um homem vestido completamente de negro, com umas calças apertadas que não deixavam nada à imaginação, acompanhada de uma camisa de manga larga cruzada por tiras que se entrelaçavam no peito.  Passeou o olhar pela escura figura, de quase dois metros de altura e constituição atlética, detendo-se uns segundos em seu rosto. Era formoso, de uma beleza sobrenatural. Vastos cabelos azeviches até os ombros, lábios rosados, rosto esbranquiçado, nariz aquilino, sobrancelhas finas e perfeitas.
—Quem é você? —perguntou Gabrielle com voz débil, gemendo ao tentar sentar-se.
Lucius chiou os dentes. Seu dever era matá-la. Não ir contra a lei.
Devia dar exemplo com seus actos. E, entretanto, estava permitindo que uma humana, que tinha presenciado uma execução, continuasse com vida. Fechou os punhos com força, cravando as unhas em suas palmas. Era um estúpido que caminhava pela beira da ruína e tudo pelos fermosos olhos de uma mulher.
Gabrielle caiu ao chão quando tentou levantar-se, enquanto esperava uma resposta. Apoiou uma mão sobre o peito e começou a respirar com dificuldade. Os seus pulmões ardiam na ausência de oxigênio, os seus olhos choravam de impotência. Estava tendo um ataque de ansiedade, seu rosto estava tomando um tom avermelhado e suas pupilas se dilataram até encobrir a cor do íris.
Se continuava assim acabaria perdendo a consciência e naquele parque que não passava ninguém por aquelas horas da noite, a não ser aqueles com claras intenções de esvaziar os bolsos dos assaltados, a jovem pereceria, como um animal ferido, em solidão.
Lucius fechou os punhos e resmungou alto uma maldição. Ia se arrepender do que ia fazer, mas não poderia deixá-la morrer.
—Vou te levar comigo —disse tomado-a nos braços.
Gabrielle abriu os olhos e olhou à cara, tentando por todos os meios enfocar a visão.
Virá comigo. Agora dorme pequena. Fecha os olhos e descansa. Respira com calma. Não permita que o medo te governe. —Ordenou-lhe mentalmente, conseguindo que caísse adormecida pacificamente.
Gabrielle se deixou cair sobre seu quente corpo. Tremia da cabeça aos pés, chorando lágrimas de impotência ao sentir como os seus pulmões queimavam ante a falta de oxigênio. Sua mente se nublava e a última coisa que viu antes de desmaiar foi o rosto preocupado do estranho, que correu velozmente saindo do parque para mergulhar-se na escuridão da noite.


CAPÍTULO 1



Ao acordar, Gabrielle se sentou gritando golpeando o ar com os braços.
—Tranquila, está a salvo.
Ao girar-se, encontrou o homem que a agarrou no parque. Estava sentado em uma cadeira ao lado da cama onde ela estava deitada, fumando com calma um cigarro.
Gabrielle gritou com toda força, retrocedendo até golpear com as costas no respaldo da cama, lembrando o que havia presenciado antes de sofrer o ataque de ansiedade. Esse homem a salvou, sim, mas eliminou a vida de outros três.
—Afaste-se de mim! —Sua mente não deixaba de gritar que estava diante de um assassino.
Agarrou os lençóis com nervosismo, torcendo-os. Olhou ao redor, aumentando sua angústia ao não reconhecer o quarto em que se encontravam.
—Onde estou?
Lucius soltou o ar lentamente, saboreando o amargo sabor do cigarro. O aroma do medo que exalava da mulher se misturava com o aroma do tabaco.
—Responda!
Lucius apertou o cigarro, atirando ao chão os restos fumegantes.
—Está no que vai ser de agora em diante, seu novo lar.
Gabrielle piscou alguns segundos tentando assimilar as informações antes de perguntar:
—Como assim, estou em meu novo lar? —Olhou ao redor comprovando se as portas e as janelas estavam fechadas. Não havia escapatória.— Onde estou?
Lucius sorriu mostrando seus dentes perfeitos.
—Está no meu quarto. —Levantou da cadeira e aproximou o rosto ao dela—. Deitada na minha cama.
Gabrielle apartou o olhar, ruborizada. A voz do homem era tão sensual que lhe arrepiou os cabelos, e um estranho calor se estendeu no ventre, umedecendo-a. Seu corpo respondeu surpreendentemente rápido e descobrir isso a confundiu e enfureceu. Não deveria reagir dessa maneira ante um assassino.
Tinha que escapar. Retornar a sua tranqüila e ordenada vida, e esquecer tudo o que aconteceu.
—Deixe-me ir, não direi nada à polícia. Não direi...
—Não dirá nada sobre o quê? —respondeu com extrema calma o homem, inclinando a cabeça.
Gabrielle engoliu com dificuldade. Estava segura que se admitisse em alto ter testemunhado os crimes estaria perdida. Era melhor permanecer em silêncio e procurar um modo de sair ilesa daquela situação, certificando-se primeiro de continuar com vida.
—O que queria me dizer, menina?
Gabrielle desviou o olhar.
—Nada, não ia dizer nada.
Ouvir as roucas gargalhadas do homem surpreendeu-a. Quase parecia... humano.
Com um sorriso nos lábios, Lucius se sentou na cama muito perto dela. Sujeitou-lhe o queixo e obrigou a olhar para ele.
—Ah, pequena. É deliciosa. Agora que está à minha mercê, ninguém vai te separar do meu lado.
—Vou escapar! —Acabou gritando ao perder os nervos—. E quando o fizer...
Lucius beijou com salvagismo seus lábios, possuindo com cega necessidade a apetitosa boca da mulher. Escutar de seus lábios que o abandonaria o deixou loco. A princípio, ela tentou se afastar, mas aos pucos segundos terminou respondendo com timidez. O desejo e o prazer que ela sentiu nublaram sua mente respondendo ao ataque de seus lábios.
 Sorrindo, Lucius se separou e disse em voz alta:
—Tem certeza que deseja escapar? —Colocou um dedo nos lábios úmidos y avermelhados dela.
Gabrielle golpeou a mão dele e se deitou em posição fetal sobre a cama. Não sabia o que responder. Sua mente ficou em branco quando ele a beijou, e embora lhe custasse admiti, não se sentiu forte o suficiente como para abandoná-lo. Cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar. Era uma estúpida.
Fazia só algumas horas que o conhecia e apesar disso, desejava-o como nunca desejou a ninguém. Ao sentir o sabor da sua exigente, imaginou em sua mente uma série de imagens que passaram rapidamente. Não pode identificá-las, talvez não eram nada mais que lembranças adormecidas no profundo de sua psique, mas deixaram um sentimento de tristeza que se agravava quando pensava em como faria para sair daquele lugar.
—O que você fez comigo?—Perguntou soluçando ao se cubrir sem abandonar a postura fetal, protegendo-se com aquele gesto infantil da presença que a incomodava.
Lucius sentiu sua dor e quis fazê-la sua. Estirou um o braço e tentou lhe acariciar a cabeça para confortá-la, mas desistiu ao ver os tremores que sacudiam o miúdo corpo da jovem. Obrigou-se a se afastar dela. Levantou da cama e se sentou na cadeira.
 —Por que não me deixou no parque? —murmurou Gabrielle sonolenta.
Lucius ia responder quando a porta do quarto se abriu.
—Desculpa à interrupção Lucius, o Conselho exige a sua presença.
O intruso se moveu nervoso, dando um passo para trás ao ver a fúria que mostrou seu senhor ao lhe olhar. Seus olhos destilavam raiva e um juramento de vingança por ter se ousado a entrar em seu dormitório pessoal quando ordenou que ninguém, sob nenhum pretexto, o fizesse.

Syemus Mointer se considerava um bom vassalo, além de um amigo de confiança. Devia a vida a Lucius Cuestelvinier, que lhe otorgou o dom eterno ao lhe oferecer seu sangue na noite em que o encontrou agonizante no meio do campo de batalha.
Em sua vida mortal, foi um soldado às ordens de Napoleão. Acabou ferido gravemente e ficou à beira da morte ao ser atingido por estilhaços, lançados por um dos canhões britânicos na batalha de Waterloo.
Lucius se agachou ao seu lado e lhe perguntou se desejava viver. Sua primeira impressão foi que um anjo havia chegado para buscar sua alma, mas ao vê-lo sorrir com arrogância, soube que ele não era nenhum anjo, pois os anjos não possíam longas presas nem olhos que brilhavam com prazer ao cheirar o fedor da morte e do sangue que os rodeava.
Não demorou nem um segundo em dar-lhe a mão. Lucius o pegou pelo braço e o levantou, mordendo-lhe o pescoço sem compaixão, e bebendo dele até que a última gota de sangue deslizasse por sua garganta. O frio penetrou em seu corpo, os batimentos do seu coração diminuíram e finalmente sua mente se escureceu.
Quando despertou, Syemus estava deitado em uma cama ao lado de outros soldados que participaram dos dois lados do exército, que se observavam com desconfiança e ódio, sentimentos que em vida os levou a lutar no campo de batalha.
Sempre lembraria quando Lucius entrou no quartel onde descansavam os iniciados. Sua mera presença cessou os insultos que ingleses e franceses se professavam. Os cabelos ondeavam ao vento, suavizando a dura expressão do seu rosto. Seus olhos brilhavam com uma intensidade sobrenatural, arrepiando os cabelos de quem se atrevesse a olhar para ele. Sua postura, segura e confiante, encheu-lhes de respeito, e naquela noite esqueceram seu passado ao jurar lealdade ao seu novo senhor.
Mas agora, nada disso importava. Lucius quebrou uma norma.
Tinha trazido uma humana para as terras do clã. Assim como indicava o Livro de Leis, os mortais não podiam pisar na propriedade do clã, e o vampiro que quebrasse esta regra seria castigado a sofrer tortura.
A pesar que Lucius tentou esconder a presença da mulher quando chegou à mansão, porèm os membros do Conselho se inteiraram da sua audácia. E não demoraram em tirar proveito.
Tinham esperado por séculos uma desculpa para destituí-lo da liderança e assumir o poder que tanto desejavam, e naquela noite, o próprio Lucius lhes dava a chance de alcançar esse desejo
—Lucius, o Conselho está tramando algo. Descobriram que ela está aqui. —Sinalizou com um gesto à humana—. Deveríamos tirá-la da mansão antes que movam seus fios e decidam atacar.
Lucius notou como a mulher se revolveu na cama, tremendo ante a presença de Syemus.
—Lucius, ela é um problema para todos, está quebrando as normas, ao lhe permitir que fique na mansão.
—Silêncio, Syemus! —Rugiu calando-o—. Ninguém pode me ordenar nada. Estas terras pertencem a minha família. —Estreitou os olhos e murmurou com voz grave—. Aqueles que se atrevam a desobedecer-me conhecerão  minha fúria. Agora vá e reúne os guerreiros. Traçaremos uma estratégia. O Conselho estará perdido se me atacar diretamente.
Syemus tragou com dificuldade. Fazia décadas que não via Lucius tão alterado. A fúria e a determinação que mostrava eram letais. Sua ameaça deveria acovardar os seus inimigos, mas estava seguro que os vampiros que formavam o Conselho arriscariam tudo pela oportunidade de acabar de uma vez com ele.
Antes de se retirar, Syemus deu uma olhada na mulher que tinha revolucionado a tranquilidade da mansão. Entrefechou os olhos ao ver que não era realmente formosa. Reconhecia, entretanto, que a inocência que se percebia em seus olhos atraia, mas tanto seu corpo, muito magro para seu gosto, assim como o seu rosto, eram comuns. Os cabelos ligeiramente ondulados eram de uma cor clara de chocolate sem brilho, longos até cobrir os seios. Os olhos celestes brilhavam com luz própria, iluminando o rosto arredondado. A mulher que provocasse Lucius cometeria um grave erro.
O que ele viu nesta mulher? Não entendo isso. —Pensou Syemus antes de sair do dormitòrio e se dirigir às masmorras, onde seus companheiros de caça torturavam os prisioneiros capturados naquela noite. Esperariam a chegada de Lucius, antes de planejar um novo ataque.


Uma vez sozinhos, Lucius virou e sentou na cama a esscasos centímetros dela. Era consciente do risco que estava correndo ao trazê-la no seu lar. Com esse ato ele estava quebrando uma das regras que ele mesmo ditou séculos atrás para manter a paz em suas terras. Não era de estranhar que seus guerreiros lhe recordassem às consequências que ia trazer a sua decisão. Mas não podia deixá-la para trás. Não foi capaz de abandoná-la no parque.
Agora ela era dele. Por mais que ela negasse, pertencia-lhe. Quanto antes o aceitasse, melhor para todos, porque se tentasse escapar seria perseguida sem piedade e ele não poderia salvá-la do seu destino.
Ao cheirar o medo no ar, Lucius grunhiu internamente. Fazia séculos que não tinha contato direto com seres humanos e não estava seguro do que deveria fazer para mantê-la calma no dormitòrio enquanto procurava a maneira de lidar com o Conselho e os seus homens.
Recordou as palavras de seu pai:

«Se quer manter a calma de uma mulher, lembre-se das minhas palavras; ofereça alimento abundante e um lar quente».

Lucius sacudiu a cabeça. Não estava muito seguro que seguir os conselhos do seu progenitor fosse servisse de algo, mas tentar não custoria nada.
Quebrou o tenso silêncio ao perguntar:
—Tem fome?
Gabrielle lhe olhou com confusão. Não sabia o que pensar. Viu-lhe discutir acaloradamente com o homem que entrou fazia poucos minutos no quarto, assustando-a pela ferocidade de suas palavras, e agora sorria perguntava se queria comer.
Estou diante de um vampiro com dupla personalidade. —Pensou observando-o com atenção—. Primeiro se mostra como uma fera e agora um cachorrinho. —Gabrielle entrecerrou os olhos—. Não, não posso baixar a guarda. Este homem é perigoso.
Lucius ouviu suas palavras ao ler sua mente. Quase soltou uma gargalhada ao saber que o considerava perturbado. A jovem ocultava sob o medo, uma personalidade forte e decidida. Isso lhe agradava. Não queria que ela se mostrasse débil. Os fracos acabavam mortos em seu mundo, só os fortes mereciam seguir vivendo.
—Deseja comer alguma coisa? —Repetiu, mantendo uma máscara de indiferença.
—Desculpe... —Gabrielle piscou um par de vezes enfocando o olhar, retomando a conversação—. Eu... —Era incapaz de comer, por mais que o seu estômago rugisse faminto—. Não, obrigada. Não quero nada.
Lucius ao ver que se negava, conteve-se com muita dificultade para não ordenar que comesse tudo o que mandasse trazer. Mas se o fizesse, ela não confiaria muito nele. E ele não desejava seu temor. Queria que ela o desejasse, que o necessitasse, que fosse a primeira coisa em que pensasse quando depertasse e a última coisa que circulasse pela sua mente antes de se mergulhar na escuridão dos sonhos.
Desejava seu corpo. Completamente. E por mais que negasse os fortes sentimentos que lhe provocava com só olhar para ela, não conseguia lutar contra os mesmos. No mesmo instante em que a salvou, começou a fazer parte da sua existência.
—O que vou faço com você?—Sussurrou para si mesmo, acariciando uma suave mecha de cabelo que caía sensualmente sobre o seu seio direito.
—Deixar-me voltar para minha casa. —Respondeu a mulher com voz aguda, afastando sua mão com uma tapa.
Gabrielle não queria que ele a tocasse, porque cada vez que a acariciava, excitava-a e, sentir-se quente por um homem que era um assassino e um sequestrador a fazia querer chorar até se esgotar. Era toda uma contradição.
Lucius se levantou de repente, apertando os lábios, sem lhe desviar o olhar.
—Nunca! É minha. Aceite isso. Estará ao meu lado para sempre.
—Está me dizendo que é... —A jovem duvidou alguns segundos antes de continuar—Imortal. —Ao ver que ele assentia com a cabeça, murmurou nervosa.— O que vi então não foi uma ilusão, é um... vampiro. —Sussurrou para si mesma, confirmando em voz alta o que já suspeitava.
Quando ia responder, Lucius ouviu em sua mente a chamada de Syemus. Já tinha reunido a todos. Chegou o momento de pensar com fria calma os movimentos que realizaria, e se suas previsões se cumprissem, levaria o Conselho à ruína e se livraria da sua irritante presença.
Utilizou a conexão que abriu Syemus para lhe responder que em dez minutos estaria com eles nas masmorras.
Depois de fechar a conexão e levantar as barreiras mentais, Lucius caminhou até a porta.
—Não é real... Isto é um sonho... ruim. —Ela sussurou.
Lucius a olhou por cima do ombro.
Que diabos! —Resmungou para si mesmo, aproximando-se rapidamente da cama. Sujeitou-lhe o rosto entre as mãos, obringando-a a olhá-lo diretamente nos olhos.
—Mostrarei o quão real eu sou.
E procedeu a prová-lo lambendo os lábios com antecipação ante o troféu que estava ponto de saborear. Tocou seus lábios, bebendo o gemido que surgiu. Lucius fechou os olhos quando ela lhe permitiu entrar, abrindo um pouco a boca ante a insistência da sua língua.
Gabrielle gemeu em voz alta, protestando quando ele se afastou, despregando seus lábios para tomar ar. Ao abrir os olhos, a jovem enfocou seus olhos sobre as lagoas prateadas que a olharam com desejo e paixão.
É um assassino..., o homem que está beijando é um assassino imortal. Um monstro que te seqüestrou. —Pensou, tentando convencer-se apesar de que seu próprio corpo ardia necessitado.
Lucius, ao escutar que lhe chamava monstro, separou-se dela.
—Meu nome é Lucius moça, recorda-o. —Deixando-a sem fôlego e ruborizada na cama, caminhou com passos firmes até a porta e agarrou a maçaneta, girando-a. Antes de sair do quarto, acrescentou com voz clara sem olhá-la—. Lucius Cuestelvinier, Príncipe dos vampiros.



CAPÍTULO 2



Não demorou nem dez minutos para chegar as masmorras. Ao chegar a última cela, entrou ignorando os grunhidos dos licántropos capturados pelos seus homens, os quais se revolviam furiosos nas celas em que estavam presos. Tocando a parede, contou quinze pedras à esquerda, e pressionou o número dezesseis. Num instante a parede se moveu deslizando para o lado, revelando uma sala circular iluminada por velas e aquecida por uma lareira.
Ao entrar, a parede fechou à suas costas. Só os Guerreiros de seu círculo interno conheciam aquele lugar, escondido nas masmorras. Passeou o olhar pela sala, encontrando seus homens sentados em cadeiras, relaxados antes da reunião.
Amanhã moveremos a peça para dar partida nesse jogo.
 Suas palavras alteraram os vampiros que se levantaram e o rodearam, falando todos ao mesmo tempo. Estavam aborrecidos pela precipitação dos acontecimentos. Um vampiro não tinha costume a lançar-se de cabeça em uma batalha que poderia acabar mal. E menos para salvar a vida de uma mortal.
Luc, ainda não estamos preparados.
Lucius olhou para Braiden Walton, um vampiro de trezentos anos, que salvou da morte nas ruas de Londres. Em sua vida mortal foi um bandido e um assassino que jurou servir-lo até a norte.
—O melhor seria que você devolvesse ao mundo mortal a humana.
Lucius grunhiu.
—E depois, o que me aconselha, Braiden? Que peça desculpas ao Conselho?  Que me ajoelhe por uma norma que eu mesmo criei faz séculos? —Exasperou-se, perdendo a paciencia—. Por todos os deuses,  sou o Príncipe. Ninguém pode me obrigar a nada.
Wulfric interveio apoiando uma mão sobre o ombro do seu amigo e senhor.
—Isso nós sabemos Lucius, mas o Conselho tem muito poder. Eles são capazes de convencer ao povo que deve ser castigado. —Vociferou com raiva. Eles querem a sua morte.
Lucius fechou os olhos, apertando os lábios. Conhecia os desejos dos vampiros que se levantaram sem controle no meio do clã. Os malditos aproveitavam as suas contínuas viagens de negocios para plantar a dúvida e o medo no seu povo. Lentamente, conseguiram lhes enredar para que ficassem contra ele, até o extremo de se ouvir os sussurros de uma conspiração contra ele.
Grunhiu internamente. Ninguém lhe robaria o trono. Ele era o único entre aquela gente que nasceu vampiro. Foi ele quem converteu a metade do seu povo, salvando-os da morte. Eles haviam jurado-lhe lealdade e por todo o inferno, os lembraria disso.
Estou a par de tudo o que acontece no meu clã, Wulfric. Agora eles acreditam que  têm a vantagem sobre mim ao me acusar de traição.Sorriu mostrando um sorriso cheio de escuras promessas. Se querem seguir as normas ao pé da letra, encontrarão com muitas surpresas.
Syemus, que até aquele momento permaneceu calado, disse:
—Já vejo aonde quer chegar, mas será difícil. —Lucius o olhou elevando uma sobrancelha. Syemus era um vampiro de grande inteligência capaz de prever o futuro. Uma qualidade que lhe salvou incontáveis vezes nas persecuções—. O castigo o deixará esgotado e ela ficará indefesa.
Lucius assentiu com a cabeça, lhe dando a razão. Não precisava que indicasse o evidente. Já havia analisado todos os possíveis resultados, e aceitaria o que lhe caísse em cima.
—Sigo pensando que o melhor seria devolver a mortal. —Resmungou entre dentes Braiden, cruzando os braços.
Wulfric perguntou:
O que está pensando em fazer? —Entrecerrou os olhos para Lucius—. Não vai permitir que o castiguem publicamente, não é  Lucius?
Lucius permaneceu em silêncio, confirmando desta maneira as suspeitas de Wulfric. Os protestos contra este fato não se fizeram esperar. Era impensável que o Príncipe sofresse castigo nas mãos dos seus vassalos. Era uma desonra que provocava o exílio voluntário do castigado ao não ser capaz de suportar a humilhação recebida das mãos do Conselho.
A sorte está lançada, meus amigos. Decidam o que eles decidam, o fim do Conselho está próximo. Conto com vocês para manter seguras à mortal e a princesa. —Os vampiros assentiram golpeando o peito com o punho, na altura do coração. Cumpririam as ordens, mesmo que tivessem que sacrificar suas proprias vidas.
Lucius olhou para o relógio. As cinco da madrugada. Chegou o momento de comparecer ante o Conselho, despois iria descansar, escondendo-se dos prejudiciais raios solares.
Entrecerrou os olhos de raiva. Esta seria a primeira vez na história que um Príncipe teria que prestar contas a seus homens. O problema interno que estava suportando nos últimos séculos estava prestes a explodir, e ele não estava disposto a deixar-se encurralar. Os vampiros pertencentes ao Conselho conheceriam finalmente quem era Lucius Cuestelvinier. Seu rosto seria o último a verem antes de desaparecerem da face da terra. O sangue deles salpicaria o chão da mansão, lembrando o seu povo que ele era o líder, o pai de todos e como tal, estava em suas mãos o poder da vida e da morte.
Os homens viram o seu gesto de crispasão ao verificar a hora. Em silêncio, abriram as portas para sair do escritório secreto e saíram atrás dele, acompanhando-o até os portões de entrada à câmara do Conselho. Os vampiros que cruzaram no seu caminho se afastaram assustados ante a imponente procissão.
A porta da câmara de reuniões se abriu com ímpeto, quebrando o  marco de madeira em duas partes pela força do impacto contra a parede. Os membros do Conselho, que até aquele momento estavam discutindo entre eles, calaram-se ao ver o Príncipe entrar.
Lucius Cuestelvinier apresentava uma expressão terrível no rosto, seus olhos não eram mais do que duas brilhantes frestas avermelhas analisando a cada um deles, fazendo-os tremer de medo ante sua presença.
Ethan Gibbons, o membro mais antigo e porta-voz do Conselho, levantou-se da cadeira, rodeou a mesa que presidia e se aproximou a Lucius, cujos homens permaneciam à suas costas.
Meu senhor, que surpresa...
As palavras de Ethan foram silenciadas com um grunhido de Lucius.
Deixemos as falsas adulações para outro dia. Não falta muito para a chegada do amanhecer e estou ansioso para descansar em meu quarto depois de uma noite de caça.  —Cruzou os braços e sorriu de lado, debochando do Conselho. Mas o que sabem vocês, que nunca limparam a cidade dos indesejados lobos?
Ethan rangeu os dentes, mas guardou para si mesmo as maldições que desejaba gritar ao prepotente Príncipe. Cruzou os braços, imitando-o, buscando com esse gesto a valentia para anunciar a decisão tomada por unanimidade pela câmara. O passo que estavam a ponto de dar seria decisivo para as mudanças que continuariam até conseguirem o poder absoluto da comunidade vampírica da América do Norte.
 Lucius entrecerrou os olhos ao ouvir os pensamentos do porta-voz. O muito estúpido baixou a guarda e lhe permitiu penetrar em sua mente sem ser detectado. Amaldiçoou-se interiormente. A transformação de Ethan Gibbons foi um grande erro. Ethan era ambicioso quando ainda era mortal e, essa ambição o levou a ser apunhalado por seus irmãos, e abandonado nas ruas de Londres para morrer dessangrado.
Naquela noite, Lucius estava caminhava pela cidade seguindo a pista de um grupo de lobos que estava aterrorizando os mortais. Ao entrar em um beco, o encontrou. O homem estava agonizando, gemendo de dor e vômitando sangue. Se parou para verificar o seu corpo, por se havia sido atacado pelos licantropos.
Agora se arrependia de ter parado.
Se não o tivesse transformado, nada disso estaria acontecendo. Mas os enganos cometidos no passado sempre nos alcançavam mais cedo ou mais tarde.
De alguma jeito, Lucius aprendeu a lição quando Ethan, ao fazer cinquenta anos de vampiro, conseguiu reunir um grupo de seguidores para fundar o Conselho com a desculpa de que o Príncipe estaba fora do lar há muito tempo.
Quando ele voltou de uma da caça que o levou até a fronteira do atual México, Lucius encontrou-se que tinha sido criado um Conselho de vampiros que diziam que vigiaríam porque as normas fossem cumpridas.
Deveria ter atacado naquele instante, e acabado com a vida daqueles vampiros que ousaram opor-se a ele, mas a guerra contra os licántropos sem manada estava em seu apogeu e naquele momento, pensou que o Conselho protegeria o clã se algo lhe acontecesse.
Que errado estava.
Lucius observou fixamente a Ethan. Continuava sendo o mesmo homem magricela, penteado sempre na última moda, e procurando um reconhecimento que precisava mais que o próprio sangue para sobreviver. Era um ser débil, mas tinha labia, e atacava o inimigo se escondendo atrás do punhado de vampiros que o seguia. Um covarde de olhar traiçoeiro e pele pálida.
Meu senhor, ouvimos que uma mortal esta na mansão. —A Ethan não passou despercebido o brilho perigoso nos olhos de Lucius. Excelente, a mortal é seu ponto fraco, Lucius. Usaremos isso para nosso benefício. Depois de alguns segundos de silêncio, Ethan continuou—. E tal como diz a Lei: Sob nenhuma justificativa se mostrará as nosas terras aos mortais, sob pena de tortura ou exílio.
Lucius não se mostrou surpreso. Nem sequer piscou ante suas palavras. Era como se o muito maldito soubesse de antemão o caminho que iriam tomar.
Não é preciso que me relembre minhas próprias palavras, vampiro. Conheço bem a Lei.
Então, por que motivo à quebranta?
Atreveu-se a perguntar em voz alta outro vampiro do Conselho, a quem Lucius reconheceu como sendo a mão direita do Ethan. Um vampiro que o próprio Ethan transformou, depois de receber como oferenda a fortuna do homem, que suplicou que lhe concedesse a vida eterna ao descobrir o que Ethan era.
Lucius fulminou o vampiro com um olhar, respondendo sem levantar a voz, usando um tom que não aceitava réplicas.
O que eu faça com a minha vida não incumbe ao clã. Se o Conselho faz tanta questão em seguir a Lei, aceitarei o castigo correspondente ao crime que cometi. —Os murmúrios surpreendidos dos presente ressonaram com força  na sala circular, silenciando a Lucius por alguns segundos, que observava as diferentes reações dos vampiros. Levantou a voz para continuar. Dentro de dois dias, o castigo se levará a cabo. Somente membros do Conselho e os meus Guerreiros estarão presentes.
Wulfric se adiantou um passo até ficar ao lado de Lucius.
Tem certeza, Luc?
Lucius assentiu com a cabeça, respondendo a pergunta do seu amigo.
Ethan não cabia em si do gozo que sentia. Finalmente, tinha sob seu poder o orgulhoso Príncipe. Sorriu internamente, saboreando o momento em que empunharia a arma cerimonial com a qual castigaria o condenado.
O faria pagar todas os desplantes que sofreu ao ser rejeitado como Guerreiro quando quis se unir a suas fileiras. Ninguém rejeitava-o sem sofrer as consequências. Durante um século planejou sua vingança, esperando entre as sombras. Agora... se à cobraria com gosto.
Suas ordens são Lei, meu senhor. —Assegurou Ethan, contendo a vontade de rir. O Conselho estará preparado para cumprir sua ordem. Que membros empunharão a adaga? —Perguntou seguindo o costume imposto ante um caso de castigo. Era um ritual sangrento no qual o Conselho preguntava ao Príncipe quais seriam os vampiros que empunhassen a adaga ceremonial. Nesse caso, Ethan desfrutava duplamente, pois o próprio Lucius escolheria quem o iria torturar.
Lucius seguiu com o plano. Tinha certeza que ia arrepender-se pelo o que ia dizer a seguir, mas era necessário para se librar daquela escória, era necessário que todos participassem.
Cada membro do Conselho empunhará uma vez a adaga.
Ethan ofegou surpreso, ocultando a surpresa com uma tosse simulada. Os séculos trastornaram Lucius. Vinte vampiros formavam o Conselho, portanto, seriam vinte cortes com a adaga cerimonial. Era um suicídio. Nenhum vampiro acusado e condenado sobreviveu a mais de quinze cortes.
É um convencido, Lucius. Mas seu orgulho conduzirá a sua queda. Mesmo se sobreviver a cerimônia, estarás débil, e vamos a aproveitar para atacar a mansão. De uma maneira ou de outra, tomarei o controle do clã.
O sorriso que delineou Ethan foi só um flash que se apagou quando percebeu que os Guerreiros que rodeavam a Lucius desembainhavam as armas. Quando ia gritar-lhes que estava proibido entrar naquele lugar levando armas, ouviu o grito de Lucius. O príncipe apagou a fúria de seus homens com alguns estranhos sons.
Com reticência, os Guerreiros guardaram as armas e cruzaram os braços esperando o próximo comando do seu senhor.
Luc, deveríamos nos encarregar destes bodes, aqui e agora.
Lucius manteve o rosto inexpressivo.
Recorda, Syemus, que há mais de uma maneira de vencer o rival. E a estes... quero destruí-los a cada um. —Respondeu mentalmente ao seu amigo, transmitindo aos demais Guerreiros seus pensamentos, pois estavam conectados naqueles momentos. Os Guerreiros também escutaram cada palavra que Ethan pronunciou em sua mente e por essa razão, estavam dispostos a cometer uma massacre naquela sala.
—É tarde meu senhor. É hora de nos retirarmos para descansar. Comentou em voz alta Ethan, levantando um braço e indicando ao resto do Conselho que  encerrariam a reunião.
Lucius passeou o olhar pelo salão pela última vez, memorizando os rostos dos vampiros que pagariam com a própria vida por desafia-lo. Ao notar um ligeiro comichão na mente, Lucius à bloqueou elevando as barreiras, impedindo que o intruso penetrasse e rebuscasse em seus pensamentos.
Ethan tropeçou ao colidir com um muro na mente de Lucius. Tentou entrar na mente dele, mas foi impossível. Seu poder não se igualaba ao do Príncipe, mas esse pequeno detalhe não lhe impediría de alcançar seu sonho, fazer-se com o controle absoluto do clã. Ser o próximo Príncipe dos vampiros!
Lucius virou a cabeça e com um gesto, ordenou o seus Guerreiros que saíssem da câmara. Uma vez que seus homens estavan longe, Lucius girou e ficou olhando fixamente a Ethan. Mostrou um sorriso confiante e inclinado, e seus olhos brilharam com intensidade, percorrendo cada rosto que fazia parte do Conselho.
Recordem que está proibido deixar os terrenos sem minha permissão. Os verei dentro de dois dias.
E sem dizer mais nada, saiu com elegância do salão. Suas passadas ressonaram no silêncio que invadiu o lugar. Nenhum deles intencionava fugir para evitar o cumprimento de seu papel no ritual dos castigo. Mas ao escutar as palavras do Príncipe, começaram a duvidar se realmente agiam corretamente ao torturar o seu soberano por um ato que muitos deles realizavam às escondidas para abastecer-se de sangue fresco. Traziam mortais à mansão. Mas eles, uma vez que bebiam dos mortais, acabavam com suas vidas e os atiravam às bestas que mantinham presas nas masmorras subterrâneas para que se alimentassem de sua carne morta.
Ethan... É seguro castigar o Príncipe? Perguntou um dos vampiros, expressando as dúvidas em voz alta que todos sentiram depois da saída de Lucius.
Durante um segundo, Ethan não soube confrontar os vampiros que lhe seguiam fielmente. Todos olhavam com verdadeira preocupação.
Uma oportunidade como esta não volterá a acontecer novamente. Devemos aproveitá-la. Unir nossas forças para acabar com Lucius.
Suas palavras acalmaram os vampiros.
Perfeito. —Pensou Ethan saindo da câmara seguido de seus homens—. Ninguém arruinará os meus planos.


Antes de entrar no quarto, Lucius respirou fundo, procurando acalmar seu agitado coração. Veria novamente a mulher, dormiria junto a ela. E por todos os demônios, não estava seguro de poder conter-se. À queria, a pesar de que ela lhe fizesse enfurecer ao chama-lo de monstro, ansiava o seu corpo. Quería conhecer cada centímetro da sua pele.
Passados alguns segundos, entrou silenciosamente no quarto, fechando a porta com um feitiço para que ninguém incomodasse até a noite seguinte. Avançou para a cama, onde a jovem descansava deitada de lado. Lucius à comtemplou. Seus cabelos dourados estavam espalhados pelo travesseiro, algumas mechas cobriam ligeiramente seu rosto. As longas pestanas charmosas, os lábios tentadores entreabertos, o peito subindo e baixando rítmicamente; comphuna uma bela imagem que o hipnotizou.
Maldição. —Lucius murmurou em voz baixa ao sentir como o calor da luxúria percorrendo seu corpo, aglomerando-se em seu quadril, cobrando vida uma parte da sua anatomia que cresceu o dobro de seu tamanho.
Observou sua virilha onde se apresentava claramente a protuberância que se sobressaía em sua apertada calça de couro preto. Fazia séculos que não sentía dessa maneira tão esmagadora.
Lucius soltou um xingamento em sua língua natal. Estava excitado como um vampiro adolescente, apenas ao olhá-la dormindo e imaginar como sería a sensação das suas pernas ao redor de seu quadril. Esquentou até o extremo de necessitar uma ducha fria para acalmar seu corpo e sua mente.
Desabotoando a camisa, Lucius se aproximou até o banheiro e abriu o chuveiro, optando pela água fria, metendo-se sob a geleda cascada depois de tirar as calças. Gemeu ao sentir o contraste de temperatura. Seu corpo se esticou devido à temperatura baixa da agua, relaxando segundos depois ao habituar-se a agradável sensação de senti-la correr pelas costas.
Todavia, uma parte do seu corpo não se acalmava, seguia excitada e disposta para a guerra. Sem pensar muito, baixou a mão por seu peito acariciando seu ventre até chegar a seu membro. Passou um dedo por toda sua longitude, afogando um gemido. Estava tão excitado que doía. Fechou a mão sobre seu pênis e começou a acariciá-lo, subindo e baixando lentamente.
Lucius mordeu o lábio inferior impedindo que os gemidos fossem escutados no dormitório. O gosto de seu sangue o acendeu. Os vampiros eram puro prazer... prazer pela dor, pelo sangue, pelo sexo.
Estirou a cabeça para tras, abriu a boca e ofegou. Enquanto se acariciava, imaginava que a jovem inexperiente bombeava seu membro com a boca. Imaginava-a de joelhos ante ele, fechando sua luxuriosa boca sobre seu pau, sugando o que pudesse, lambendo com gula o latejante membro com desejo enquanto lhe acariciava com as mãos os testículos.
Lucius deu um passo para trás e ficou com as costas apoiada na parede, a água caindo sobre seu ventre, o frio chocando diretamente contra a quentura de sua virilha. Em nenhum momento deixou de acariciar-se, subindo e baixando a mão em toda a longitude do seu membro, lubrificado pelo líquido seminal, que começava a gotejar do seu interior. Não duraria muito mais. Estava na beira do abismo.
Aumentou o ritmo das carícias, movendo os quadris no compasso, sem deixar de imaginar que era a boca de sua fêmea que o estava conduzindo ao clímax. O orgasmo o atingiu duro, fazêndo-o gritar com prazer ao mesmo tempo em que seu ventre era salpicado de sêmen que a água se ocupou de limpar. Com a respiração ofegante, Lucius se recompôs e estirou o braço procurando o gel, e lavou seu o corpo.
Dez minutos depois, saiu do banho vestido com um roupão preto, caminhou até à cama e se deitou ao lado dela. A jovem entreabriu os olhos ao sentir o peso de outro corpo de perto.
Mas que é... fora! Disse com voz sonolenta ao ver o braço dele sobre seu quadril.
Lucius estava deitado de lado, abraçando-a pelas costas, aspirando seu aroma, grunhindo interiormente para não forçá-la a lhe dar uma amostra do seu sabor.
Shh, pequena. Só quero dormir.
Gabrielle paralisou quando Lucius baixou a cabeça e depositou um terno beijo no seus lábios. Lembrou o que aconteceu antes que ele saísse enfurecido do quarto. Se começasse a beijá-la apaixonadamente de novo, não sería capaz de resistir ao forte sentimento que produzia nela seus beijos. Mas, não aconteceu nada. Depois de beijá-la, ele apoiou a cabeça no travesseiro e dormiu.
Gabrielle se sorpreendeu ao sentir momentaneamente uma insana decepção ao ver que ele não fez mais nada.
Estúpida. —Repreendeu-se mentalmente—. Não deixarei que ele me possua, se acontecer... estarei perdida.
Lucius descansou como não fazia em anos.
Em contraste, Gabrielle, foi incapaz de dormir.

Lucius não à soltou a noite inteira, ou talvez tenha sido o dia inteiro. Não sabia que hora era, com as cortinas fechadas. Quando se adormeceu, morta de cansaço, relaxou aprisionada nos braços do vampiro.








Prólogo


Nathaniel se orgulhava de seu valor e de sua força e se vangloriava de suas virtudes sorrindo com orgulho a quem o rodeava. Apesar de ser um tritão de apenas oito verões esgrimia o bluirt com mestria sendo capaz de superar os seus companheiros de treinamento. Dele se esperava muito, pois era o herdeiro da coroa do Reino de Atlântida.
Nathaniel era o filho mais velho do rei Doivar e como tal lutava e se esforçava dia a dia para alcançar a seu pai. Ia ser o próximo rei tritão, desde que era um infante o tinham repetido dia após dia para lhe inspirar em seu treinamento. Quando fosse um tritão adulto aceitaria um cargo que suportava grande responsabilidade e do que necessitava uma forte determinação. Em suas mãos teria o bastão de poder que levava em todo momento seu pai e com o qual seria capaz de dirigir as marés e o fluxo dos oceanos. Sua família levava protegendo o bastão desde tempos imemoriais, este passava de pais a filhos selando a promessa que jurou o primeiro Klaider ao deus dos mares.
“Proteger seu mundo, mesmo à custa de suas vidas.”
Nathaniel Klaider se converteria no vigésimo sexto rei tritão, na noite de lua cheia de seu décimo sétimo verão de existência.
Ou isso ao menos era o que todos esperavam, e com o que sonhava o jovem tritão...
Até a noite em que todo seu mundo desmoronou-se... E se viu obrigado a escapar junto com sua jovem irmã do palácio, deixando atrás os fantasmas de seu passado e os corpos sem vida de seus pais.
Os gritos de sua mãe ressoariam em sua mente durante anos, impedindo-lhe de encontrar a paz e recordando-lhe cada noite o juramento que se fez quando olhou pela última vez o que fora seu lar.
Encontrar aos causadores daquilo,… e acabar com eles, com suas próprias mãos.





-1-


Mireilla Smither golpeou pela quarta vez o botão do alarme que havia no balcão do motel. Encontrava-se em um velho motel que parecia que estava a ponto de desmoronar, e que resultou ser o único alojamento possível.
Quando por fim se animou a seguir a sua voz interior – além disso, do empurrãozinho que supôs sua família – e aceitar o trabalho que lhe ofereceram na ilha de Saint Thomas, ao norte do oceano Atlântico, não se imaginou que ia encontrar-se tão perdida e com sua mala atirada em um chão sujo e poeirento de um motel que parecia tirado de um filme de terror.
Desde menina sua família a pontuou de insípida. Ela sempre foi a tímida da família, sempre nas nuvens e não arriscando-se na vida. Mireilla sempre bufava quando lhe diziam que devia parecer-se mais com suas irmãs. Até seus próprios pais adotaram essa expressão que a feria.
Mas… como ia parecer-se com suas irmãs se estas eram modelos que viajavam ao redor do mundo posando para os melhores fotógrafos?
Ela não tinha a culpa de ter nascido com uma altura mediana e ter ao menos – e tudo em palavras de suas esfomeadas irmãs – quinze quilos a mais.
Assim, sem querer, era o patinho feio de sua família, vivendo à sombra do êxito de suas irmãs, suportando as brincadeiras dos que a rodeavam. Na escola secundária – o pior período da sua vida – tinha aceitado seu aspecto e o papel que ia representar dentro de sua família. Ela não podia competir em beleza com suas irmãs, mas podia buscar um futuro acadêmico. Desta maneira começou a estudar com paixão, absorvendo cada palavra que lia, conseguindo um doutorado em historia depois de realizar uma tese de mitologia greco-romana.
E como chegou a uma ilha da qual ninguém sabia e que descobriu sua localização depois de consultar um mapa detalhado da costa?
Pois por uma aposta. Uma simples e pestilenta aposta com suas irmãs.
Essas harpias apareceram em seu apartamento do campus no que trabalhava de ajudante do professor de história, e a desafiaram e ela aceitou – depois de seis doses de tequila haver-lhes-ia dito que sim a qualquer petição que lhe fizessem.
Deixando de lado as lembranças, Mireilla golpeou com vontade o ditoso aparelho enquanto dizia em voz alta:
―Há alguém aí? Levo dez minutos esperando a que me atendam.
Escutou ruído na parte de atrás do mostrador e pegadas apressadas. Mireilla sorriu. Agora parecia que ia atendê-la.
Com curiosidade e um pouco mais relaxada ao ver que poderia dormir sobre um bom colchão, Mireilla olhou a seu redor. O pó e a sujeira eram evidentes nos escassos móveis que adornavam a entrada do local. Também havia um velho móvel com prateleiras nas quais tinham fotos antigas que mostravam o esplendor perdido do lugar. Sob seus pés havia um tapete pegajoso e descolorido em que se percebiam partes queimadas por bitucas e que recomendaria ao dono que atirasse ao lixo.
Sua inspeção foi interrompida ante a aparição do dono.
―Que deseja jovem?
Mireilla girou-se e ficou olhando. O homem devia medir apenas uns dez centímetros mais que ela. Seu aspecto era descuidado, mostrando uma desnutrição evidente, pois sua enrugada pele estava presa aos ossos. Era um ancião extremamente magro e desalinhado com uns cabelos recortados sem forma alguma e de um tom cinzento. Depois de repassar a estranha vestimenta, pois vestia uma calça de cor cáqui e uma camisa de manga curta de uma cor alaranjada desbotada, Mireilla olhou-lhe o rosto, tentando por todos os meios conter sua língua. Os olhos do homem eram completamente brancos. Estava cego. Agora compreendia o porquê de o lugar parecer tão abandonado. O pobre homem com sua cegueira não seria capaz de limpar a sujeira e fixar-se nas imperfeições que lhe rodeavam.
―Jovem? Diga-me o que quer?―sua rouca voz a tirou de seu devaneio.
―Eu…―titubeou―. Necessito alojamento, e no porto me disseram que este é o único lugar que dispõe de quartos livres.
O homem esboçou um sorriso torto.
―Chegou em má época jovem. Dentro de três dias vai se celebrar pelas ruas principais da cidade um desfile comemorativo, recordando que o temido pirata Barba negra viveu aqui. Outros hotéis da ilha estão ocupados. Estamos em temporada alta.
Mireilla deixou cair à mala de mão, o som que produziu ao golpear contra o chão assustou ao ancião que saiu de atrás do balcão, com os braços em alto procurando-a.
―Encontra-se bem? Esse golpe… espero que não lhe tenha passado nada. Não podem fechar meu motel, se o fizerem onde dormirei?
Os balbucios do homem a tiraram de seu devaneio, Mireilla girou-se e levantou um braço lhe tocando.
―Estou bem, senhor. É só...―Que estou a ponto de chamar a minhas irmãs para amaldiçoá-las até o dia de suas mortes... por fazer-me tomar uma iniciativa como esta, pensou, mas disse em alto tentando demonstrar calma em sua voz―… que deixei cair ao chão a minha mala. Desculpe-me se lhe assustei.
O homem esboçou um sorriso, mostrando uma dentadura em que faltavam vários dentes. Tomou a mão e sem deixar de sorrir a levou até o balcão.
―Está bem jovem. Antes não estava acostumado a me sobressaltar tanto, mas agora com meu...―Mireilla viu quando engoliu em seco e franziu a testa. Notava-se que lhe custava falar de sua deficiência, assim decidiu mudar de tema, lhe perguntando.
―Há quartos livres?
―Se há quartos livres?―repetiu o homem mostrando a surpresa no tom de sua voz ―. Claro que existem. Você pode escolher o quarto. Espera que lhe mostre e...
O entusiasmo que mostrou o homem foi contagioso. Mireilla sorriu e lhe assegurou que um dormitório que desse de frente para o mar servia. Adorava contemplar o mar de noite. O suave sussurro das ondas acariciando as douradas praias a tranquilizava, e quando chegou à ilha esperou encontrar um motel onde pudesse dormir escutando ao mar. Quando os donos dos motéis aos que visitou antes de chegar ao que estava lhe disseram que não havia quartos livres, deprimiu-se. Havia aceitado o trabalho sem ter pensado sequer em buscar um bom alojamento e um meio de transporte. Não era habitual de ela lançar-se de cabeça em uma aventura sem ter tudo planejado detalhadamente.
Mas ao menos... A improvisação não era tão má. Ou ao menos isso era o que estava pensando enquanto seguia o dono do motel escada acima, a sua nova habitação, depois de assinar o contrato de arrendamento por dois meses. O tempo que tinha para procurar toda a informação que encontrasse naquela ilha do pirata mais famoso dos sete mares.
O pirata Barba Negra.
Uma vez que estaria sozinha em seu novo lar durante os seguintes dois meses, Mireilla deixou sua mala em cima da cama e caminhou para o balcão. Sorriu quando viu a paisagem que a recebia. A poucos metros do motel havia uma pequena praia privada de areia dourada que reluzia sob os raios do sol. As águas cristalinas nas quais se via o fundo do mar acariciavam-na com calma, seguindo um ritmo tão antigo como o próprio mundo. A vegetação limítrofe da praia era de um verdor intenso salpicado com diversas e chamativas cores das flores típicas da ilha.
Fechou os olhos e desfrutou da calma que lhe transmitiu o que a rodeava.
Se antes se lamentou de sua precipitada decisão, agora estava segura de que havia feito a melhor escolha de sua vida.
Estaria por dois meses em um paraíso, realizando um trabalho que adorava.
Mireilla soltou uma gargalhada cheia de felicidade, entrando de novo no quarto para desfazer a mala e descansar após a longa viagem de barco.
―Trabalho, dinheiro… agora eu só posso amar―disse risonha, zombando internamente da semente que sempre esteve em seu coração e que nunca pôde germinar ao sentir-se sempre inferior, pois cada homem que conhecia em sua vida a comparava com suas irmãs quando o apresentava à família―. Mas primeiro desfazer a mala, uma ducha rápida e amanhã à biblioteca a procurar informação de Edgard Teach.
O que a jovem nunca esperaria era que sua vida iria mudar radicalmente, cumprindo cada um de seus mais profundos desejos.







-2-


As ruas da cidade da ilha Saint Thomas em que estava Mireilla estavam repletas de turistas que não deixavam de tirar fotos com suas caras e pomposas câmaras de fotos. Mireilla olhava com curiosidade ao seu redor, assombrando-se que aquele festival que estavam preparando pendurando pôsteres nas janelas das lojas e grinaldas nas fachadas dos edifícios fosse uma comemoração a um homem que aterrorizou a milhares de pessoas com seu maldoso e escuro coração. Edward Teach nunca teve piedade com seus prisioneiros, desfazendo-se de todos aqueles que se interpunham em seu caminho. Seus triunfos como pirata percorreram os mares de sua época, como um rumor de um anjo da escuridão que aterrorizava a todos os comerciantes que apareciam em seu caminho.Os tesouros que conseguiu foram gastos até o último dobrão em mulheres e bebida. Junto a sua tripulação, a que nada mais que o desejo de enriquecer-se abordando navios, unia-lhes. Entre piratas não havia lealdades. Por um cofre de moedas de ouro espanhol teriam vendido a seu capitão.
Mireilla se aproximou de uma pequena loja expondo folhetos e livros dedicados ao famoso pirata. Ir até a loja foi uma conquista, mas quando entrou suspirou aliviada. Não suportava estar rodeada de tantas pessoas. Sentia que faltava ar se lhe rodeavam até invadir seu espaço íntimo, empurrando-a e arrastando-a para onde a multidão se movesse.
Dentro do pequeno local Mireilla passeou diante das prateleiras admirando os livros ali expostos. Talvez… compraria um. Alguns livros escritos sobre o Edgard Teach estavam bem documentados e narravam sua história tal qual foi. Dura, cruel e cheia de traições.
―Necessita algo?―Mireilla se voltou e ante ela estava uma mulher de meia idade que vestia um apertado traje cinzento e tinha recolhido o cabelo em um coque alto.
―Não, obrigada. Só estava olhando.
A vendedora sorriu mais abertamente ao ver a hesitação nos olhos de Mireilla. Levava muitos anos no negócio, atendendo aos turistas que se aproximavam da ilha na festividade de Barba Negra e aquela mulher mostrava o desejo de adquirir conhecimentos sobre o pirata. E nunca lhe falhou seu instinto.
―Está segura senhorita? Aí tem bons livros. Aquela fala dos tesouros que conseguiu Barba Negra e este da vida que levava antes de morrer.
Mireilla olhou os livros que lhe aconselhou à senhora e desprezou comprá-los. Não eram mais que guias ilustradas para turistas, exagerando os dados históricos.
―Não, obrigada. Essas guias não me interessam. Mas se tiver um da história da ilha documentada, talvez eu compre.
A senhora elevou uma sobrancelha dissimuladamente, um pequeno tique que com os anos poliu para que não notassem o interesse que mostrava ante uma nova venda.
―Vejo que é uma mulher com as ideias claras. Isso está bem. Venha comigo, mostrar-te-ei uns textos antigos. São um pouco caros, mas se está verdadeiramente interessada, verá que bem vale esse preço.
Mireilla assentiu com a cabeça e a seguiu, picada pela curiosidade. Se após ter entrado naquela pequena loja encontrasse um texto inédito, teria o reconhecimento que lhe abriria as portas da sua profissão. Era apenas ajudante do departamento de História, ainda depois de ter estudado Licenciatura. Seu trabalho consistia em preparar as aulas de seu chefe, documentando-se na matéria que tocava cada dia para logo lhe dar a pasta com a teoria e as imagens que seu chefe explicaria a seus alunos. Ela não era mais que uma biblioteca com pernas que fazia o trabalho sujo.
Nem reconhecimento, nem prazer por seu trabalho.
Estava cansada de ser menosprezada e usada.
Internamente aquela era uma das motivações – além da aposta – que a levou a aceitar o papel de investigadora.
Agora, seguindo a uma mulher que dizia ter um texto de valor histórico, sentia-se exultante, percorrendo-lhe o corpo uma comichão de antecipação, como se esperasse que verdadeiramente fosse realizar um achado importante.
―Aqui está.
A voz da vendedora a tirou de seu devaneio e se concentrou no livro de capa curtida e páginas amareladas. As letras eram douradas e o fechamento era uma tira de couro que se enrolava ao redor do documento mantendo protegidas suas páginas.
Se for um livro escrito na época em que viveu Barba Negra, estaria escrito à mão e suas páginas estariam soltas.
Colheu-o com mãos trêmulas, pois uma primeira inspeção ao velho texto lhe confirmou que era antigo.
―Ele custa 1.200 dólares.
Mireilla afogou o ofego de impressão que lhe causou aquele exagerado preço. Mas depois de uns segundos nos que tentou assimilar aquela cifra, recordou que tinha o apoio do reitorado e o departamento de História que tinham posto ao seu dispor perto de dois mil dólares. Com aquele pressuposto teria que sobreviver os meses que passaria na ilha. Possivelmente era precipitado pagar aquele dinheiro por um texto que embora não parecia falso, havia uma porcentagem alta de que o fosse.
O que faço? Se gasto 1.200 dólares ficará muito pouco para sobreviver os meses seguintes. E tenho que pagar o alojamento e a comida. Pensou enquanto acariciava as tampas. Mas por outro lado... O motel não é caro, e se fizer um pouco de dieta... Que diabos eu vou comprá-lo! Decidiu-se sorrindo.
―Levo isso―Mireilla não viu o sorriso de satisfação que esboçou a vendedora ao ver que ia ganhar 1.200 euros por um jornal que encontrou seu avô enterrado em seu jardim.
Aquele velho jornal não valia nem as três partes do preço que aquela inocente mulher ia pagar-lhe, já o tinha levado a um avaliador de antiguidades quando seu avô faleceu e este lhe disse que não valia nem 200 dólares. Mas… ela não o ia comentar. É obvio que não. Uma venda era uma venda, apesar de que fosse uma fraude. Já não haveria volta atrás. Do momento em que agarrasse o dinheiro da mulher, já se esqueceria do jornal e não aceitaria reclamações.
Mireilla enquanto isso examinava com ilusão sua compra, sem ser consciente do engano.
Antes que se arrependesse, a vendedora a levou de retorno ao mostrador de sua loja, passando pela entrada do armazém onde guardava o jornal em uma pequena caixa forte, e fez-lhe uma fatura em papel, alegando que a caixa registradora avariou-se. Com aquele papel assinado com um nome falso, não lhe serviria para reclamar quando ela percebesse que o diário era falso.
Mireilla entregou-lhe o cartão dourado que lhe deu o reitor da faculdade de História. O som da máquina quando passou à vendedora o cartão lhe fez sentir remorsos. Era muito dinheiro. Mas depois de vê-lo mais atentamente bem valia à pena. Aquele velho texto era um diário que poderia revelar novos dados do famoso pirata. Já tinha vontade de chegar ao motel e encerrar-se em seu quarto para lê-lo minuciosamente.
―É isso aí. Toma―devolveu-lhe o cartão e Mireilla o guardou novamente em sua carteira―. Que tenha um bom dia jovem! E desfruta da festa. Tenho que fechar a loja agora.
A Mireilla pareceu estranho que a mulher agora tivesse tanta pressa por fechar a loja, quando antes parecia que estava a ponto de atá-la a uma cadeira até convencê-la a comprar algo, lavando-lhe o cérebro com imagens e slogan dos guias para turistas. Mas afastou de sua mente a desconfiança e saiu do local rumo ao motel, colina acima. Esquivou-se como pôde aos turistas que gritavam emocionados na rua ao presenciar um rodeio em que os atores representavam um assalto de piratas à ilha.
Mas quando passou ao lado de um grupo de atores vestidos de piratas, Mireilla chocou com um deles.
―Desculpa―disse procurando recuperar o equilíbrio depois de se chocar com o muro robusto que era o homem.
―Procura olhar por onde vai, moça, ou acabará machucada.
Dizer que ficou paralisada era um eufemismo. Mireilla engasgou ao ver que diante dela um sexy e selvagem pirata a sustentava de um braço, mantendo-a segura da multidão que lhe rodeava.
Mireilla o olhou com os olhos exagerados e engoliu com dificuldade. O “pirata” era atraente, um autêntico bombom que atraía os olhares das mulheres ao seu redor. Era alto, perto de um metro noventa e ombros largos. Vestia umas calças de couro negro que se ajustava ao seu corpo como uma segunda pele. A camisa branca que lhe cobria o peito estava aberta, deixando ver parte de sua magnífica anatomia.
Por um segundo se assombrou ao comprovar que não tinha cabelo no peito. Era imberbe. O único cabelo que se via a simples vista era o seu longo cabelo loiro brilhando sob a intensa luz do sol e suas arqueadas sobrancelhas.
Mas o que lhe provocou um calafrio em todo o corpo foram seus olhos azuis. Eram magnéticos, atraentes.
E ela caiu em sua rede.






-3-

Nathaniel não podia acreditar o que estava vendo. Aquela mulher sustentava o diário de seu pai, o objeto que levava procurando durante mais de seis anos e que foi o motivo de que se encontrasse naquela imunda ilha cheia de humanos.
Viu-se obrigado a fazer-se passar por um mais deles, participando de cada festividade, compartilhando uma taça com outros homens da ilha e resistindo as insinuações das mulheres que se aproximavam cada noite a ele dispostas a compartilhar um bom momento.Detestava o contato com aqueles seres que estavam destruindo o mar que amava com todo seu coração e que o abraçava cada noite quando se inundava em suas frias águas.
Ele pertencia à raça dos Sereios, habitantes dos mares, mais conhecido na cultura popular dos humanos como tritões. Tinha passado sua juventude na cidade de Atlântida. Ia converter-se no seguinte rei tritão, até que a desolação destruiu o castelo de sua família e o deixou sem coroa e com o coração tingido de ódio, raiva e desejo de vingança.
Devo consegui-lo. Não posso permitir que esta mortal tenha o diário de meu pai. Nele está à chave para encontrar o bastão do poder Levava anos buscando-o.
Quando já acreditava perdido um dos guardas que tinham trazido com a irmã nos Mares do Sul, comentara que a chave para encontrá-lo estava em um velho diário que esconderam no mundo humano.
Ao princípio se enfureceu com os velhos Guardas, mas depois de pensá-lo atentamente se precaveu que tinham agido corretamente. Se algum membro ou aliado da atual família Real que governava a cidade de Atlântida descobria a existência do diário localizariam o símbolo de poder, o bastão criado pelo deus dos mares e entregue ao primeiro tritão lhe benzendo com o dourado metal.
Agora sua única esperança de recuperar o trono jazia sobre o peito agitado de uma mulher humana que o olhava com fascinação.
Nathaniel sorriu abertamente.
Que a mulher o considerasse atraente lhe conviria. Faria o que fosse preciso para recuperar o diário, embora tivesse que tocá-la ou seduzi-la, ainda contra suas crenças e costumes.
―Está bem, moça?―perguntou suavizando o tom de sua voz, olhando-a fixamente.
Mireilla engoliu com dificuldade. Seu coração palpitava com intensidade contra sua caixa torácica e esperava que o homem não pudesse escutar seu amalucado ritmo.
O que se estava bem? Não estava muito segura. Por agora respirava, mas se seguia olhando-a assim acabaria tremendo dos pés a cabeça, desfazendo-se por dentro.
―Encontra-te bem?―voltou a perguntar o homem.
Antes que pensasse o homem que era uma estúpida sem cérebro por ficar lhe olhando-o boquiaberta, respondeu finalmente.
―Sim, encontro-me bem. Obrigada.
Tenho que me afastar deste homem, ou cometerei uma loucura. Não estou acostumada a que me olhem… assim. Pensou a jovem antes de procurar uma saída olhando a seu redor, evitando os magnéticos olhos do pirata.
Quando tentou liberar-se do aperto, encontrou-se que o homem a segurava com força em seu braço. Mireilla passeou seu olhar do braço ao rosto do homem concentrando sua vista na testa, um truque que lhe ensinou seu professor de história antiga da carreira quando confiou que lhe aterrorizava falar diante das pessoas. Com aquele gesto evitava ficar mal, pois parecia que estava lhe olhando nos olhos e ao mesmo tempo não ficava nervosa com a intensidade de seus olhos.
―Poderia me soltar, senhor?
Nathaniel cheirou o medo que desprendeu a mulher ao ver-se apanhada. Queria conseguir seu objetivo sem que a humana chamasse as autoridades da ilha, tinha que suavizar seus gestos.
Não será tão difícil fazer-me passar por um macho normal. Levo seis anos nesta ilha e ninguém tinha descoberto meu segredo.
―Não sem antes que me diga seu nome, preciosa.
A resposta da mulher não foi a que se esperou.
Tinha presenciado como os machos daquela espécie soltavam essa frase sem sentido nas noites que se reuniam no único bar do povo e conseguiam que as mulheres lhes acompanhassem à pista de baile, onde saltavam sem ritmo algum tentando seguir à estridente música que ressoava com força no local.
A mulher que o olhava com desconfiança e que possuía uns formosos olhos azuis tornou-se para trás e saiu correndo aproveitando que ele a tinha soltado.
Nathaniel ficou quieto.
A mulher sumiu de sua vista misturando-se com as pessoas que presenciavam o rodeio.
―Essa mulher é um osso duro de roer, Nat. será difícil você levá-la para a cama.
Nathaniel girou-se.
A sua esquerda um pirata de cabelos castanhos e cavanhaque, com uns olhos cinzentos e de compleição forte parou a seu lado, observando à mulher que até apenas uns segundos tinha estado à mercê de Nathaniel.
―Não quero levá-la ao catre.
―O que você disser, amigo―Eric Willliams sorriu de lado, cruzando os braços. Depois dos anos, tinha aceitado que Nat era capaz de negar até o evidente. Seu orgulho lhe impedia de dar o braço a torcer, defendendo sua postura e sua maneira de pensar apesar de estar equivocado.
Nathaniel passou ao lado de Eric e retornou à rota da procissão. Ambos ficaram atrasados e se queriam finalizar a jornada daquele dia deveriam apurar o passo para alcançar os outros.
Eric se manteve perto dele, seguindo o ritmo que impôs para chegar até o grosso da procissão. Nat tinha se mantido calado, nem sequer tinha respondido a sua provocação. Eric soltou um suspiro. Às vezes, Nat parecia que era feito de pedra. Qualquer outro teria saltado, ou tinha seguido a brincadeira, qualquer... Menos Nat. Sua chegada à ilha tinha sido inesperada. Tinha aparecido de um dia para outro, molhado e vestindo uns farrapos velhos. Muitos foram os que lhe perguntaram se tinha naufragado seu navio, mas ele se manteve silencioso e não respondeu nenhuma das perguntas, nem sequer o xerife da ilha conseguiu tirar-lhe a informação.
A única informação que conseguiram foi seu nome, Nathaniel Klaider, e seu ofício mergulhador profissional. E embora Eric odiasse reconhecer, Nathaniel era melhor mergulhador do que ele. Ambos tinham montado uma pequena empresa de mergulho para mostrar aos turistas a riqueza da fauna marinha da ilha e seus arredores.
Por um módico preço, mostravam os corais que rodeavam a ilha e a protegiam do forte fluxo causado pelos múltiplos maremotos e erupções de vulcões submarinos.
A rota que seguiam tinha covas marinhas com grande riqueza animal e que se viam com claridade ante as águas cristalinas. Os turistas que pagavam por seu serviço ficavam gratamente satisfeitos depois de ter nadado entre peixes de milhares de cores que se aproximavam deles com curiosidade e sem temor algum, chegando inclusive Nathaniel a lhes dar de comer.
Era um espetáculo digno de ver.
Nathaniel, que sempre estava sério e com uma careta de eterno aborrecimento em seu rosto, mudava quando submerso na água. Seus olhos brilhavam com intensidade e seu corpo se movia com fluidez.
O projeto que iniciaram depois de uma noite de bebedeira no bar tinha dado bons frutos, recuperando os gastos que investiram para fundar a empresa.
―Onde estavam?―a voz do organizador e dono do único bar da ilha soou com aborrecimento ao vê-los aparecer―. Inferno, devemos ir juntos, fazer a montagem do show na cidade. Não ficando atrás por que queiram.
―Sim, chefe―Eric o saudou militarmente antes de unir-se a outros que se detiveram com suas espadas de metal sem fio desembainhado.
Nathaniel passou sem lhe dizer nada e seguiu Eric até misturar-se com outros.
O organizador deu de ombros, optando por ignorar seu comportamento e caminhou para frente, ficando diante de todos. Desembainhou sua espada e a elevou por cima de sua cabeça.
―Os turistas nos estão olhando, já sabem o que terá que fazer―disse em voz baixa para ser escutado unicamente pelos homens que estavam as suas costas―. Esta noite a ilha será nossa!―gritou com euforia provocando as exclamações animadas dos turistas que esperavam aquela atuação. Thomas Flintter, taberneiro de noite, aquele dia era o famoso e desumano Barba Negra que gritou a ordem a seus homens de atacar e estes lhe obedeceram.
A festa do assalto do Barba Negra à ilha era uma festividade em que todo o povo participava, vestindo roupas daquela época e em que os turistas se divertiam quando eram alcançados por globos de água e as mulheres eram elevadas nos braços por homens robustos e de boa aparência.
Nathaniel participou como outro ano mais. Mas sua mente estava fixa em uma só mulher. O ser humano indescritível que tinha entre suas mãos o diário de seu pai e possuía uns formosos olhos azuis que recordavam o seu.






-4-


O trajeto para o motel foi exaustivo. As pessoas que cruzavam seu caminho não deixaram de empurrá-la em direção contrária a procissão. Mireilla suspirou aliviada quando viu a fachada do motel.
Estava esgotada. Parecia que acabava de chegar da guerra em que meio povo estava como loucos correndo de um lado a outro participando daquela festividade sem sentido. Por quê? Como era possível que celebrassem o assalto de uns sanguinários piratas?
Não o compreendia.
Bastou atravessar as portas de entrada do motel, que Mireilla saudou o ancião que estava seguindo a festa escutando a alegre voz da cadeia de rádio local e subiu ao seu dormitório.
Encerrada em seu quarto sentou-se na cama depois de tirar os sapatos e concentrou-se no diário. Acariciando as suaves tampas do velho livro, veio-lhe à mente o intenso olhar do pirata.
Avermelhou e recuou, tombando na cama, tampando os olhos com as mãos.
―Se conto ninguém acreditaria em mim. Esse homem devia estar brincando comigo. É impossível que estivesse interessado―recordou as palavras de suas irmãs, que zombavam dela em muitas ocasiões quando mostrava interesse por um homem e uma delas o arrebatava―. Se um homem aproxima de você é porque lhe necessita para algo, não por sua beleza nem por que a deseja―recitou alto, mostrando sem pretender a amargura que sentia quando recordava aqueles tempos e que a marcou para a vida.
Sua vida sentimental era virtualmente inexistente. Tinha mantido relações com seu único noivo formal na faculdade, encontraram-se quando compartilharam um livro da biblioteca para fazer um trabalho do Antigo Egito. Thomas Feilder era um homem agradável de sua mesma idade que conseguiu curar sua baixa auto-estima. Ambos compartilhavam gostos e realizavam as mesmas atividades. Parecia o casal perfeito, até que sua irmã Maryam decidiu visitá-la depois de ler uma de suas cartas.
Maryam levou apenas uma semana para quebrar o coração dela.
Mireilla apertou os olhos com força. Recordar a noite em que encontrou seu noivo brincando de médico com Maryam ainda produzia-lhe dor.
Hoje em dia, ainda não falava com Maryam e esta aproveitava seu silêncio para deixá-la como a má da família, pondo-a contra os outros.
―Que vão todos para o diabo!―gritou, sentando-se de repente, recolhendo as pernas e apoiando-se contra a cabeceira da cama―. Isso é passado, agora somente devo me concentrar em meu trabalho. Não necessito a ninguém mais.
Tomou o diário e abriu-o com cuidado para não romper a correia que o protegia. Não se equivocou. Suas páginas eram amareladas e escritas com uma tinta de fabricação caseira. A letra que se percebia era carregada, inclinada à esquerda, com alguns borrões de tinta ou por ter caído gotas de água sobre o texto.
―Como se chorasse quem o escreveu―disse alto, anotando mentalmente essa possibilidade.
Deixou por uns segundos o diário aberto na cama, e levantou-se para agarrar sua caderneta de notas que sempre tinha a mão em sua bolsa de viagem. Depois de pegar a caderneta e uma caneta, retornou à cama.
―O texto está escrito em três idiomas diferentes. Há textos em latim antigo, outro em grego, acredito que estes símbolos... Não sei o que significam―murmurou para si mesma, escrevendo algum dos estranhos símbolos em sua caderneta. Eram umas espécies de curvas e linhas que se cruzavam, em meio de desenhos de animais com duas patas longas e sem pelos.
À medida que avançava a leitura do texto em latim, a euforia que Mireilla sentia aumentava. Aquele diário era uma espécie de pedra de Roseta, que ensinava um idioma desconhecido até o momento de uma civilização anterior à romana.
Mas o texto parecia escrito por uma mente moderna. Falava de aparelhos que voavam pelo céu e obscureciam com sua fumaça a luz do sol. Descrevia as naves que sulcavam a água e que destroçavam a calma do mar, e era a maior causa da morte de muitas espécies marinhas.
Com cada palavra que traduzia do latim antigo – dando obrigado interiormente ao seu ex-noivo que lhe aconselhou seguir estudando o latim antigo especializando-se na tradução de textos – a história a absorvia, transportando-a a uma cidade chamada Atlântida, que sofria as intrigas e a luta pelo poder.
―Atlântida. Deve ser uma brincadeira. Não pode ser verdade que a mítica Atlântica existisse.
Ela nunca acreditou que existisse a Atlântida. Muitos em sua faculdade eram defensores intransigentes daquele mito, especulando sua localização, mas ela duvidava de sua existência.
Eles eram daqueles que para acreditar em algo devia vê-lo, tocá-lo.
Seguiu lendo, anotando em sua caderneta de vez em quando. Estava tão absorta que não sentiu a chegada da noite.
E não foi até entrar a madrugada, quando seus olhos estavam vermelhos de tanto ler e sua mente embotada, quando decidiu apagar a luz.
Sonhou com um Reino maravilhoso sob o mar, habitado por seres míticos como as sereias e tritões, que nadavam entre os corais.
Talvez... Seu sonho em breve se tornaria realidade?






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